Eppur si muove: mobilidade humana, cidadania e globalização

Reza a lenda que, ameaçado de morte como decorrência de sua crença na visão heliocêntrica do mundo, contraposta ao modelo geocêntrico de uma Terra estacionária, defendido pela Igreja Católica, Galileu teria se retratado perante o Papado e suspirado, ao final, que "eppur si muove" (e, no entanto, ela - a Terra - se move). Se fato ou mito, a anedota é ilustrativa do tratamento dado ao estudo da mobilidade, em particular da mobilidade humana, na área de Relações Internacionais. O estudo do movimento era, até muito recentemente, percebido como prática quase herética para a disciplina. Centrada na tríade Estado-território-cidadão, e protegida pelo véu da soberania, a análise da política internacional centrava-se nos elementos de fixidez das dinâmicas políticas e percebia o movimento como ruptura problemática e como ocorrência patológica. O sistema seria marcado por condições estacionárias e por forças históricas contra as quais não se poderia lutar. A própria etimologia da palavra "Estado", o ator por excelência da política internacional, é indicativa da obsessão disciplinar com a constância. O termo Estado deriva do latim stare, verbo que indica permanecer ou manterse de pé e do qual derivam outros termos, igualmente indicativos de inércia, como status. Não cabe aqui adentrar a crítica, já largamente discutida e contundentemente avançada no debate teórico, das vicissitudes da história e sociologia de uma disciplina construída a partir de e para um grupo restrito de países e tomadores de decisão. Cumpre salientar, contudo, que, a despeito de notáveis esforços e importantes contribuições, essa trajetória produziu uma cegueira relativa da área a um dos fenômenos mais resilientes, abrangentes e significativos da experiência humana: as migrações.

2011

Carolina Moulin Aguiar,

http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-85292011000100001&script=sci_arttext

Assine nossa newsletter