Notícias

17/12/2018

Seminário do IRI discute questões de Gênero, Violência e Construção da Paz

O Seminário "Gênero, violência e construção da paz: perspectivas e debates na política internacional” teve como objetivo aprofundar os debates sobre paz e segurança a partir de uma perspectiva de gênero, investigando criticamente como o gênero foi transversalizado nas políticas contemporâneas voltadas para a transformação de conflitos, redução da violência e construção da paz. O evento reuniu acadêmicos, especialistas em gênero, estudantes e outras partes interessadas para discutir as lacunas existentes, intercambiar boas práticas e identificar formas de fortalecer a implementação da agenda Mulheres, Paz e Segurança no Sul Global.

Image and video hosting by TinyPic

O evento se iniciou com um com um Keynote Speech de Danny Maria Ramírez Torres (Comissão da Verdade da Colômbia) que abordou a questão da implementação da Agenda Mulheres, Paz e Segurança que tem como objetivo incluir meninas e mulheres nos processos de construção da paz. Nesse sentido, ela analisou os Planos de Ação Nacional dessa Agenda dos países da América Latina. Sobre a Colômbia, Danny apontou que o país ainda não implementou um PNA mas que existem muitos grupos que buscam pressionar e difundir a presença feminina nos espaços de construção da paz.

Image and video hosting by TinyPic

O primeiro painel “Repensando as fronteiras entre gênero e violência: ferramentas teóricas e limites conceituais”, mediado pela professora Paula Drumond (IRI/PUC-Rio), contou com a presença de Laura Sjoberg (University of Florida), Marysia Zalewski (Universidade de Cardiff University), Elisabeth Prügl (Graduate Institute of International and Development Studies)  e Henri Myrttinen (International Alert). Laura Sjoberg, em sua fala, mostrou que a guerra não começa e nem termina com um armistício ou outros decretos tradicionais pois seus efeitos e consequências se prolongam durante o tempo. Além disso, Sjoberg discorreu sobre o a genderização do conceito de guerra que, por sua vez, privilegia o masculino, o Estado. Marysia Zalewski, por outro lado, apresentou um vídeo impactante que se baseia em uma cena real de estupro no Congo representada por uma família branca do Reino Unido a fim de chamar a atenção do público branco para problemas que estão distantes dessa realidade. Nesse sentido sua fala trouxe uma reflexão do público tanto com relação às questões de gênero quanto de raça. Elisabeth Prügl, por sua vez, falou sobre a participação feminina nos processos de construção da paz. Além disso, ela trouxe uma crítica ao termo “peacebuilding”, afirmando que ele não deve se restringir a trazer apenas o fim da guerra, mas também a construir uma base sólida para a sociedade através da valorização de dinâmicas locais. Henri Myrttinen, em sua fala, trouxe conceitos importantes como mulheres, gênero, paz, segurança e os aplicou ao mundo da política. Nesse sentido, Myrttinen se concentrou em três temas que, segundo ele, não seriam bem representados na Woman, Peace and Security Agenda: a interseccionalidade, a masculinidade e a diversidade de orientações sexuais, identidades e expressões.

Image and video hosting by TinyPic

O segundo painel, “A agenda MPS (Mulheres, Paz e Segurança) em perspectiva: experiências e desafios no Brasil e na América Latina”, mediado por Tamya Rebelo (Centro Universitário Belas Artes, São Paulo) contou com a participação de Camilla Corá (MRE), Marcela Donadio (Resdal), Suzeley Matias (Universidade Estadual Paulista) e Renata Giannini (Instituito Igarapé). Camilla Corá falou sobre o Plano Nacional de Ação Brasileiro, lançado no ano de 2017, explicando cada um de seus quatro pilares e a forma com que ele foi inaugurado. Nesse sentido, Corá também falou sobre as possíveis formas de se colocar o Plano em prática, principalmente no que diz respeito a inserção de mulheres do Itamaraty. Marcela Donadio, por sua vez, falou sobre o surgimento dos Planos Nacionais de Ação, citando as resoluções do Conselho de Segurança que se referem ao tema Mulheres, Paz e Segurança. Além disso, Donadio falou sobre o caso específico de elaboração do Plano na Argentina. Suzeley Matias, por sua vez, falou sobre as dificuldades enfrentadas pelo Brasil de incluir uma perspectiva de gênero em suas operações de paz mesmo com incentivos da ONU. Renata Giannini, em sua fala, apresenta a atuação do Instituto Igarapé no que diz respeito a Agenda Mulheres Paz e Segurança. Além disso, ela analisa o caso colombiano, país que não possui um Plano de Ação Nacional e que, ainda assim, possui uma ampla participação de mulheres nos acordos de paz e na sociedade civil, com o objetivo de entender as condições que tornaram isso possível e transportá-las para o Brasil.

Image and video hosting by TinyPic

O terceiro painel, “Silêncios e oportunidades perdidas na agenda MPS”, mediado pela professora Paula Sandrin (IRI/PUC-Rio) contou com a presença da professora Paula Drummond (IRI/PUC-Rio), Tamya Rebelo (Centro Universitário Belas Artes, São Paulo), Laura Lowenkron (UERJ), Ana Clara Telles (IRI/PUC-Rio) e Linda Cerdeira (Promundo). Paula Drumond e Tamya Rebelo, em sua fala, apresentaram a revisão do Plano de Ação Nacional brasileiro, feito pelas mesmas para o Instituto Igarapé, com o objetivo de mostrar como o plano se constitui e quais foram seus principais avanços e desafios. Nesse sentido, as autoras da revisão, afirmaram que, apesar de alguns avanços nas áreas de operações de paz e refúgio, o Plano brasileiro ainda silencia determinados temas e grupos. Ana Clara Telles, por sua vez, falou sobre a política de drogas e a forma com que a mesma tem forte impacto na vida das mulheres. Sendo assim, Telles fala sobre o silenciamento desse tema por parte da Agenda Mulheres Paz e Segurança no Brasil. Linda Cerdeira, no entanto, alertou para o fato de que o conceito de gênero está quase sempre pautado nas mulheres tanto enquanto vítimas ou parte dos processos de paz o que acaba por excluir o homens e meninos que, segundo Cerdeira, seriam sempre colocados como os opressores. Nesse sentido, Linda concluiu sua fala apontando para a necessidade do Plano de Ação Brasileiro incluir a dimensão relacional entre intramasculinidades e intrafeminilidades. Já a professora Laura Lowenkron trouxe para o debate a questão do tráfico de pessoas no Rio de Janeiro, afirmando que há uma limitação do conceito de agência por parte, tanto da polícia quanto da própria academia, o que reproduz e reforça certos modelos de gênero.

Image and video hosting by TinyPic

O quarto painel “Feminismo e construção da paz desde o Sul Global”, mediado pela professora Andrea Gill (IRI/PUC-Rio), contou com a participação, de Cristine Koehler Zanella (Universidade Federal do ABC), Andreza Jorge (Casa de Mulheres da Maré), Tchella Maso (UFGD) e Ana Paula Maielo (UEPB). Cristine Koheler Zanella, em sua fala, vai apontar que, epistemologicamente, o próprio Sul Global cria papéis de subalternização e inferiorização das mulheres e de outro grupos tendo em vista que essas práticas estão incorporadas no Estado moderno em si. Andreza Jorge, por sua vez, colocou o feminismo negro como a chave para a transformação de uma estrutura patriarcal e machista, o que implicaria no fim de alguns privilégios. Tchella Maso, no entanto, trouxe a questão das mulheres indígenas e a forma como o feminismo ocidental, muitas vezes, acaba por não contempla-las. Já Ana Paula Maielo fala sobre as mulheres muçulmanas e coloca a importância de entender o islã antes de julga-lo. Nesse sentido Maielo falou sobre a interpretação que vertentes do feminismo costumam a ter sobre essas mulheres a fim de desconstruir essa ideia.

Image and video hosting by TinyPic

O último painel do Seminário, nomeado “Caminhos interseccionais para políticas transformadoras: repensando gênero e (in)segurança além da manutenção da ordem” foi mediado pela professora Marta Fernández e contou com a presença de Restier da C. Souza (IESP-UERJ), Andrea Gill (IRI/PUC-Rio) e Clarice Menezes (UFRRJ). Restier Souza, em sua fala, tratou das masculinidades focando na identidade do homem negro. Andrea Gill, por sua vez, falou sobre o projeto colonial e a forma com que ele impôs um sistema patriarcal com o homem branco no topo. Nesse sentido, a professora alertou para a importância de, a fim de entender o conceito de gênero, se aprofundar nas lógicas de branquitude e masculinidade. Clarice Menezes, fechando a mesa, falou sobre sua trajetória e seus consequentes desafios como mulher negra na academia, um lugar que ela conclui ser extremamente elitista, principalmente na área das Relações Internacionais. Nesse sentido, Menezes trouxe a importância de uma democratização nesse espaço.

  Image and video hosting by TinyPic

O Seminário se encerrou com uma música cantada ao vivo por Luiza Fialho de autoria da mesma, denominada “Hino das Mulheres”, que teve como objetivo transmitir um sentimento de força e empoderamento.

Image and video hosting by TinyPic

voltar