Os caminhos das artes: educação popular e metodologias formativas nas periferias

A professora Andréa Gill, em conjunto com Isabela Souza (Observatório de Favelas), contribuiu com o capítulo “Os caminhos das artes: educação popular e metodologias formativas nas periferias” para a publicação do volume “Organizações sociais populares: educação e memória nas periferias”.

O presente trabalho se insere em diálogos e processos que buscam ampliar metodologias educativas e de formação política através de linguagens artísticas a partir de sujeitas/os e territórios periferizadas. Objetiva-se renovar a aposta nas artes como geradora de espaços formativos e linguagens que comunicam de modo abrangente, especialmente no que tange a criação de redes autônomas e arquivos centrados na produção de saberes e narrativas próprias. Assim, tem como intuito reposicionar o debate sobre educação popular e o princípio de democracia na atual conjuntura política brasileira, sofrendo crescentes ataques e investidas perante processos seculares de apartamento territorial e racial, constantemente atualizado pela colonialidade do ser, saber e poder herdada do projeto imperial europeu de base escravista que forjou o estado e a sociedade vigente e seus mecanismos de inclusão e exclusão social. Para tanto, propõe-se uma discussão sobre a criação da Escola Livre de Artes – ELÃ como experimento pedagógico-artístico para jovens artistas oriundas/os de favelas e periferias, puxada pelo Observatório de Favelas do Rio de Janeiro, através do projeto Galpão Bela Maré e organizações parceiras. A partir de suas metodologias formativas e disputas políticas, procura-se afirmar a centralidade do campo artístico como local de produção de conceitos, métodos e incidências políticas na formação de redes e espaços educativos nas periferias urbanas.

O lançamento do volume ocorrerá no dia 28/09, às 17h, na PUC-Rio, Edifício Frings (sala F410).

Im/possible Pathways: The Politics of Place and Decolonial Cartographies in the Global South

A professora Andréa Gill publicou o capítulo “Im/possible Pathways: The Politics of Place and Decolonial Cartographies in the Global South” no livro “Investigating Cultures of Equality“, editado por Dorota Golanska, Aleksandra M. Rózalska, e Suzanne Clisby.

O capítulo reflete sobre os diversos caminhos abertos, fechados, e refeitos durante um projeto de pesquisa-ação iniciado em 2018 em periferias do Rio de Janeiro, com o objetivo de mapear e experimentar com abordagens artísticas para a violência racial e de gênero. Ao articular parcerias acadêmicas, artísticas e da sociedade civil, uma série de cursos comunitários e residências artísticas formativas foram projetadas e realizadas, culminando com a consolidação da Escola Livre de Artes (Elã) no Galpão Bela Maré, sob a direção do Observatório de Favelas do Rio de Janeiro, como um meio de gerar diálogos, conceitos e metodologias que avançam uma agenda coletiva de análise e ação política, em e através de linguagens artísticas que democratizam o acesso e repercutem com os territórios e sujeitos marginalizados no debate acadêmico e público. As conversas propostas assumem dilemas metodológicos como um problema de disposição, para além de procedimento, não impedindo a mobilização de diversas abordagens e conhecimentos arquivísticos, intertextuais, documentais, estatísticos, orais e vivos para compor os terrenos de pesquisa, constantemente sujeito a contestação, reformulação e reemissão.  Ao chamar nossa atenção para as dinâmicas que sustentam o processo de investigação – desde antes trabalho de campo até após a disseminação de seus chamados outputs – torna-se possível enfrentar a forma como todo conhecimento é uma trans/formação da realidade.

A publicação é parte das iniciativas vinculadas ao projeto GlobalGRACE (Gênero e Culturas Globais de Igualdade). O GlobalGRACE é um programa de pesquisa financiado pelo Global Challenge Research Fund (GCRF) que mobiliza intervenções artísticas, curadorias e exibições públicas para pesquisar e possibilitar abordagens de gênero que contribuam para o bem-estar internacionalmente.

O projeto inclui acadêmicas/os e ONGs de Bangladesh, Brasil, México, Filipinas, África do Sul e Reino Unido. No Brasil, o projeto vem sendo desenvolvido por meio da parceria entre o Instituto de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e as ONGs Instituto Maria e João Aleixo, Instituto Promundo e Observatório de Favelas. A ação no Brasil está guiada pela proposta, “Descolonizando o conhecimento e refazendo as masculinidades através da arte: culturas de igualdade nas periferias urbanas do Rio de Janeiro”


A vingança de Prometeu: Ciência, Tecnologia, Inovação e a reconfiguração do poder internacional no século XXI

Este artigo examina a reconfiguração do poder internacional desde o fim da Guerra Fria,incorporando dimensões cruciais de ciência, tecnologia e inovação (CT&I). Acompanhamos a evolução das posições relativas ocupadas por Estados Unidos, União Europeia (UE), China, Japão, Índia, Rússia, Brasil e Coreia do Sul na economia global entre 1990 e 2020 em três dimensões: dinamismo produtivo – medido por participação relativa no produto interno bruto (PIB) mundial calculado por paridade de poder de compra (PPC); dinamismo científico e tecnológico – medido por participação relativa na autoria de artigos publicados em revistas internacionais indexadas; e dinamismo de inovação – medido por participação relativa no registro de patentes no mundo. Para medir e avaliar as mudanças estruturais em curso, adaptamos os índices de Rae e Taylor e de Laakso e Taagepera, comumente usados para aferir graus de fragmentação em sistemas políticos, elaborar índices de concentração/dispersão de poder relativo em cada dimensão e indicar o número e a composição de “potências relativas” no seu âmbito. Os resultados evidenciam a erosão do poder relativo das “potências tradicionais” (Estados Unidos, Europa e Japão), a ascensão acelerada da China e a emergência de novas “potências relevantes” (com destaque para a Índia e a Coreia do Sul), mas com graus diferenciados de difusão/concentração conforme a dimensão considerada. Reforçam a compreensão de que capacidades nacionais em CT&I se tornaram um vetor central da reconfiguração do poder mundial.

Autores: Luis Manuel Fernandes, Ana Saggioro Garcia, Samuel Rufino de Carvalho e Lúcia H. T. Viegas.

O artigo foi publicado na Revista Tempo de Mundo, número 28, publicação quadrimestral do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). A edição completa está disponível, com acesso livre.

Post-conflict Colombia and the global circulation of military expertise

A professora Manuela Trindade Viana acaba de publicar pela Editora Palgrave Macmillan o livro “Post-conflict Colombia and the global circulation of military expertise“. O trabalho faz parte da série “Critical Security Studies in the Global South“, editada pelas Profas. Pinar Bilgin (Bilkent University) e Monica Herz (IRI/PUC-Rio).

No livro, Manuela propõe que pensemos o “pós-conflito” não em termos de presença/ausência de violência, mas de transformações no uso da violência. Tomando como ponto de entrada a Colômbia e sua circulação internacional como um “caso de sucesso”, a análise se desdobra em duas partes. A primeira explora as condições de possibilidade dessa “história de sucesso” e a teia de critérios que a legitimam, bem como os mecanismos de silenciamento que permitem que a Colômbia circule internacionalmente como uma fórmula a ser replicada em outras partes do mundo. A segunda centra-se na historicização dos mecanismos pelos quais as novas regras são transmitidas entre os profissionais da força pública, em especial as transformações das escolas militares e centros de treinamento na Colômbia dos tempos de “guerra” aos tempos de “paz”. Manuela argumenta que a chave para o reposicionamento do país no circuito de saberes militares hemisférico e global é uma articulação discursiva em torno do profissional militar que desliza do “soldado-cidadão” para o “soldado-expert”. 

O prefácio do livro é de acesso aberto, assim como o índice – ambos disponíveis.

40 anos da Teoria Crítica nas Relações Internacionais

Ao explorar debates metateóricos e metodológicos, questões éticas, discussões sobre a geografia do conhecimento, bem como análises empíricas a partir de referenciais teóricos inovadores, os artigos deste dossiê contribuem, esperamos, ainda que em pequena escala, para a relevância da teoria crítica em RI e, mais ainda, ao imperativo de uma forma crítica de pensar a área de Relações Internacionais.

A nova edição, intitulada “40 Years Of Critical Theory on International Relations” já pode ser acessada e baixada na íntegra, com acesso livre.

Contexto Internacional
Volume: 44, Número: 1 (2022)

Índice:

40 Years of Critical Theory on International Relations
Ramos, LeonardoWorth, OwenVivares, Ernesto

Texto: EN / PDF: EN

Construindo pontes entre a Teoria da Dependência e a Teoria Crítica Neogramsciana: A relação agência-estrutura como ponto de partida 
Mello, Rafael Alexandre

Resumo: EN PT / Texto: EN / PDF: EN

Retomando o pensamento crítico: Uma crítica às contribuições teóricas de Andrew Linklater para as Relações Internacionais
Sander, Fabiana FreitasSouza, Matheus

Resumo: EN PT / Texto: EN / PDF: EN

A crítica ainda é possível na Teoria das Relações Internacionais? Um engajamento crítico com a vocação de RI 
Souza, Natália Maria Félix de

Resumo: EN PT / Texto: EN / PDF: EN

Como Gramsci viaja na América Latina? Antes e depois da Teoria Crítica das Relações Internacionais.
Tussie, DianaRamos, Leonardo

Resumo: EN PT / Texto: EN / PDF: EN

Apropriação de terra e Economia Política Internacional: Rumo a um modelo teórico Neo-Gramsciano crítico de governança da terra na América Latina
Mora, Sol

Resumo: EN PT / Texto: EN / PDF: EN

Economia política internacional e finanças sustentáveis: avaliando o acordo verde da UE e o “New Deal verde” da UNCTAD
Jäger, Johannes

Resumo: EN PT / Texto: EN / PDF: EN

Saiba mais sobre a Revista Contexto Interancional:

Contexto Internacional: journal of global connections é uma revista quadrimestral de Relações Internacionais revisada por pares e publicada em inglês. Baseada no Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio, Brasil, seu objetivo é oferecer um fórum para pesquisas conceitualmente inovadoras nas Relações Internacionais, entendida em sentido amplo.

A Contexto está particularmente interessada em promover e incentivar o desenvolvimento das RI no/do/a partir do Sul Global. Trabalhos que contribuam para a compreensão da pluralidade de perspectivas presentes no campo de RI e avancem o debate sobre as conexões entre conhecimentos locais e assuntos globais são, portanto, preferíveis.


Acesse as edições anteriores.

Integração Regional Africana: panorama, avanços e desafios

O regionalismo é a forma pela qual os Estados-nação procuram solucionar questões políticas e econômicas no nível regional, tradicionalmente vinculadas à promoção do livre-comércio e à superação de conflitos interestatais. Para os países menos desenvolvidos, o regionalismo é percebido como um mecanismo estratégico de desenvolvimento. Diante dos processos de independência, as iniciativas de integração africanas começaram a ser pensadas e fundadas de forma concomitante à formação dos Estados-nação no decorrer do século XX. Isso faz da integração do continente africano um processo particular. Este trabalho faz uma análise do desenho institucional e do grau de institucionalização das principais organizações regionais africanas, enfatizando seus objetivos e seu papel para a integração continental e oferecendo um histórico de criação dos mecanismos de integração que culminaram na formação da União Africana (UA), a principal organização de integração do continente. Aborda, ainda, a institucionalização dos dois principais e mais recentes mecanismos de desenvolvimento da UA, a Agenda 2063 e a Área Continental de Livre-Comércio Africana (African Continental Free Trade Area – AfCFTA) e apresenta uma análise institucional das oito comunidades econômicas regionais (CERs) reconhecidas pela UA, as quais atuam junto à organização de forma colaborativa, a fim de promover uma integração ampla. Por fim, realiza uma síntese com apontamentos sobre as principais dificuldades, desafios e avanços dessa complexa estrutura de integração regional.

Autoras: Caroline Chagas de Assis, Renata Albuquerque Ribeiro e Ana Saggioro Garcia
Publicado no Boletim de economia e política internacional / Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA).

Participatory methodologies and caring about numbers in the 2030 Sustainable Development Goals Agenda

O artigo “Participatory methodologies and caring about numbers in the 2030 Sustainable Development Goals Agenda”, produzido pela professora Isabel Rocha de Siqueira e a doutoranda Laís Ramalho, acaba de ser publicado na revista acadêmica Policy and Society. A Policy & Society é uma das publicações líderes atualmente nos estudos de teoria e prática na área de Ciência Política, RI e Políticas Públicas, contando com altíssimo fator de impacto. O artigo está publicado em livre acesso e pode ser encontrado aqui.

Explorando a interseção entre os estudos de Relações Internacionais e Políticas Públicas, as autoras discutem o papel das metodologias participativas no processo de localização dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da ONU. A partir de entrevistas com atores envolvidos na promoção da Agenda 2030 no Brasil e uma análise do trabalho realizado pela ONG data_labe, da Maré, o artigo faz um estudo crítico dos ODS, enquanto propõe duas principais reflexões: como uma agenda global de desenvolvimento pode ser importante na luta por direitos em contextos locais e como as narrativas podem desempenhar um relevante papel no combate à invisibilidade estatística de minorias.

O artigo é fruto de pesquisa financiada pelo CNPq (edital Universal) e que contou com apoio à pesquisa das então graduandas do IRI Celeste Passos e Beatriz Wenderroscky. Em breve, mais produtos serão divulgados.

As relações civis-militares como um “problema de coordenação”? Desenvolvimento de doutrina e as múltiplas ‘missões’ das Forças Armadas Brasileiras

Este artigo das autoras Victória M. S. Santos e Maíra Siman foi publicado na prestigiada revista internacional Critical Military Studies, da Editora Routledge, Taylor & Francis Group.

À medida que as Forças Armadas brasileiras são crescentemente mobilizadas fora do âmbito da defesa contra ameaças externas (em tarefas como manutenção da paz, segurança pública e gestão migratória), a doutrina militar de Coordenação e Cooperação Civil-Militar (CIMIC) tem emergido como um corpo de ‘conhecimento técnico’ que apoiaria suas interações com vários atores civis. Isso se expressa em frequentes demandas de oficiais militares pelo desenvolvimento de uma ‘doutrina CIMIC brasileira’ refletindo tanto o conhecimento acumulado de parceiros internacionais, como a OTAN e a ONU, quanto sua própria experiência no ‘campo’, como em seu recente engajamento na Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (MINUSTAH). Defendemos que a progressiva institucionalização da doutrina militar de CIMIC recentemente observada no país reforça uma perspectiva segundo a qual diversos domínios de ação tradicionalmente atribuídos ou liderados por atores civis são vistos como parte legítima da chamada ‘missão’ das Forças Armadas brasileiras. Com isso, disputas políticas sobre as relações civis-militares e o papel das organizações militares fora do âmbito da defesa externa são reduzidos a desafios técnicos de coordenação e cooperação entre militares, órgãos civis do Estado e a sociedade brasileira. Neste artigo, discutimos essa tendência analisando o desenvolvimento da doutrina militar sobre CIMIC no Exército Brasileiro e suas conexões com seu crescente engajamento na manutenção da paz, segurança pública e gestão da migração no país e no exterior.

O artigo está disponível somente em inglês.

As relações econômicas entre China, América Latina e Caribe: uma análise a partir dos acordos de proteção de investimentos

A China tem papel central no regime internacional de investimentos como país emissor e anfitrião de investimento externo direto. Ela também é o primeiro país em maior número de tratados bilaterais de investimentos. Neste artigo, analisamos os tratados da China com países da América Latina e Caribe e as principais características de suas relações comerciais, financeiras e de investimento. Buscamos questionar em que medida a China pode se tornar uma parceira alternativa para as economias da região e se o país contribui para promover inovações no modelo de TBI vigente.

Autores: Ana Saggioro Garcia (IRI/PUC-Rio) e Rodrigo Curty (University of Waterloo)

Publicado em 25 de abril, na Carta Internacional, revista científica da Associação Brasileira de Relações Internacionais.

Em cena: críticas de Ken Loach ao Neoliberalismo

O ensaio analisa três filmes do cineasta britânico Ken Loach – “Espírito de 45” (2013), “Eu, Daniel Blake” (2016) e “Você Não Estava Aqui” (2019) – que podem ser lidos como uma trilogia sobre a ascensão e queda do estado de bem-estar social no Reino Unido.  Os autores argumentam que, por um lado, as três obras têm o mérito de nos ajudar a fazer sentido dos efeitos do neoliberalismo sobre redes de proteção social, condições de trabalho e corpos e mentes de uma classe trabalhadora crescentemente precarizada e desmoralizada. Por outro lado, apontam para os silêncios da trilogia, aquilo que ela não mostra, mas que é crucial se quisermos entender porque grande parte da classe trabalhadora britânica, precarizada e ressentida após 40 anos de neoliberalismo, manifestou sua insatisfação votando a favor da saída do Reino Unido da União Europeia, atraída por uma campanha com tons nacionalistas e xenófobos, e não pelo espírito socialista que anima Ken Loach. Dentre os silêncios mais notórios e consequenciais, estão as hierarquias raciais no Reino Unido. Ao retratar a classe trabalhadora britânica como predominantemente branca e preocupada quase que exclusivamente com a deterioração das suas condições materiais de vida, os filmes se tornam incapazes de capturar outras perdas sofridas por essa classe; perdas essas que compõem a complexa atmosfera afetiva que culminou no voto a favor do Brexit. 

Artigo assinado pela professora Paula Sandrin em conjunto com Francisco Veras (ex-PIBIC/IRI) e Rachel Pires do Rego (ex aluna IRI) e que fez as artes que ilustram o ensaio. O ensaio foi publicado na edição 96 da revista Insight Inteligência.